Amnon KapelioukO plano de retirada anunciado por Ariel Sharon, prevendo o desmantelamento de colonatos judaicos da Faixa de Gaza envolvendo 7000 pessoas, suscita grande número de reacções favoráveis. A oposição trabalhista, a organização "Paz agora" e mesmo o partido Yahad, "pai" do pacto de Genebra, que preconiza o regresso às fronteiras de 1967 - todos felicitam Sharon pela sua "coragem" e "clarividência". Uma aprovação semelhante vem do estrangeiro e dirigentes ocidentais multiplicam os louvores ao primeiro-ministro israelita. Claro que a evacuação de um único colonato dos que se têm instalado no território palestiniano ocupado desde há 37 anos é de saudar, mas isto faz do plano de evacuação de Gaza um plano de paz?
Tornou-se evidente que a criação de colonatos nesta zona foi um fracasso: apenas 7000 colonos se instalaram, enquanto na Cisjordânia há mais de 250.000 (sem contar os 200.000 judeus instalados na parte de Jerusalém ocupada desde 1967). Esses 7000 colonos monopolizam 40 por cento das terras de Gaza e utilizam 50 por cento da sua água, mas não têm qualquer peso face ao milhão e meio de palestinianos que se acumulam nessa faixa de terra. A sua segurança exige somas importantes e a mobilização de numerosos militares. Nestas condições, sair de Gaza não é um sacrifício para Israel, mas um alijar de carga.
As manifestações agitadas dos extremistas e fanáticos da direita nacionalista, as ameaças de "guerra civil", assim como os apelos de elementos fascizantes ao assassinato de Sharon pela sua "traição" são explorados pelo governo, sobretudo no estrangeiro, para mostrar que a retirada de Gaza é muito difícil e que não se pode pensar em promover outras retiradas na Cisjordânia. Assim o processo de paz ficaria bloqueado "até que os palestinianos se tornem finlandeses", segundo a expressão paternalista do principal conselheiro de Sharon, Dov Weisglss, que explica: "O processo de paz significa a criação de um Estado palestiniano, o desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, o regresso dos refugiados, a partilha de Jerusalém. Tudo isso fica congelado a partir de agora".
O objectivo essencial de Sharon é, mais do que o congelamento do processo de paz, dar aos colonatos da Cisjordânia um estatuto permanente, a fim de os anexar. Não foi o próprio presidente Bush que prometeu a Sharon que, após a publicação do plano de retirada de Gaza, esses colonatos passarão a fazer parte do Estado de Israel? Entretanto, a colonização prosseguirá, na esperança de duplicar o número de colonos na Cisjordânia, o que criaria uma situação irreversível no terreno e tornaria inviável a criação de um Estado palestiniano.
Na realidade, a retirada fará de Gaza a maior prisão do mundo. Os carcereiros saem mas controlam as portas. O exército israelita controla o espaço aéreo e marítimo, assim como as fronteiras. E reserva-se o direito de entrar em Gaza "para combater o terrorismo".
Sharon fez tudo o que pôde para quebrar a Intifada pela força. Com a sociedade civil dos territórios palestinianos submetida à sua mão de ferro, tinha como certa uma rendição palestiniana. Mas o plano fracassou. Pela primeira vez na história das guerras de Israel, o adversário penetrou no interior do seu território e causou a morte de centenas e centenas de civis nas cidades. A economia nacional, e em primeiro lugar o turismo, fonte essencial de receitas, está a ser severamente atingida. O moral da população baixa. Crescem as críticas à recusa do governo a retomar as conversações e às violações dos direitos humanos. Alastra o movimento dos refuzniks, presos ás centenas por se recusarem fazer o serviço militar.
Tentando travar esta escalada, Sharon opta então pelo plano da retirada unilateral de Gaza, de imediato aplaudido pelos governantes ocidentais e pela própria oposição trabalhista, que não faz qualquer reserva aos aspectos negativos do plano e silencia os crimes que continuam a ser perpetrados pelo exército contra civis palestinianos.
(condensado de www.aloufok.net)
Editado às 20:14